Sangue e Veneno
Dos jazigos perpétuos tento libertar-me.
Preso a tortuosas lembranças, choro lágrimas amargas de puro ódio.
A benevolência em mim existente fora destruída pela malignidade dos demônios que atormentam o meu triste viver.
No mar de sangue em que aprendi a navegar, meu barco naufragou e eu perdi o rumo.
No leito de veneno em que adormeci, tive os sonhos roubados pela morte.
Diante de tantas mágoas, não sei mais quem sou, e tudo que vejo é um desprezo podre apoderar-se do meu ego frívolo.
Durante os anos mórbidos e sangrentos de minha estúpida vida, bebi teu sangue, que passou a percorrer minhas veias exalando fétidas o veneno deixado por teu amor.
O vento cálido do inferno queima a minha face.
E em um momento de angústia profunda, um demônio que sangrava pelos olhos veio levar-me consigo.
Querendo esquecer-te, antes de ser consumido pelas chamas do ódio que até então eu mantinha preso, explodiu e libertou-se.
Gritei, e horrorizado abracei-me ao demônio.
Ele deu-me um punhal gelado, para que eu pudesse arrancar do peito este coração inciso e diáfano.
Sua voz macabra soava.
“Mata esta dor que te consome em lágrimas”.
Angustiado e só, lembrei-me de ti.
Não havia mais saídas...
E, para te esquecer,
Sentindo golpes de uma síncope maldita, percebi que o momento chegara.
É, bebi teu sangue, e te amei demais.
Com o peito amargurado, chorei o veneno desse amor letal.
Ardendo em chamas, vi a única e lúgubre maneira de te esvair de mim.
Tomei a decisão, e vi que era assim que eu poderia te esquecer.
É...
Cortei meus pulsos e deixei sangrar.
Pois só assim escorrestes de mim...

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